Colaboração:
Afonso Henrique Paione
Profa. Daniela Reis
Prof. Lucas Bueno Pedreira
Prof. Marcos Valério Albinati
Alunos do Colégio Cetem

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O PROGRAMA INFANTIL DE RÁDIO "PETISADA ALEGRE" E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA O SURGIMENTO DE ARTISTAS VARGINHENSES

Varginha viveu no período aproximado de 1955 até por volta de 1963 uma fase histórica na música. Por iniciativa do Padre Honório, na época vigário da Paróquia do Divino Espírito Santo e apoiado pelo locutor de rádio, o carioca residente em Varginha, Sr. Djalma Guimarães foi criado o Programa Infantil de Rádio intitulado Petisada Alegre, que se realizava nas

Esse programa radiofônico era transmitido aos domingos a partir das 10 horas pela então Rádio Clube de Varginha, sob a direção do seu fundador o radialista Sr. Silas Sampaio Morais(lincar rádio clube).

Essa iniciativa pode ser considerada como o primeiro incentivo e busca de futuros talentos musicais. No programa se apresentavam crianças que através da música, poesia, instrumentação e outras manifestações artísticas, ali compareciam para demonstrar seus talentos.

Havia uma grande participação por parte dos varginhenses e demais ouvintes de outros municípios que na maioria escolhiam seus intérpretes favoritos, prestigiando-os com suas presenças os programas ou enviando-lhes cartas elogiando-os e solicitando-lhes as músicas que gostariam de ouvir, nas vozes de seus "ídolos".

A audiência era tamanha que por ocasiões de datas especiais como Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais, esses programas eram realizados no Cine Theatro Capitólio (assim chamado na época), que por ter um espaço maior podia melhor comportar os assistentes, embora ele também ficasse totalmente lotado.

Caravanas de outras cidades, filhos e pais, vinham em busca de contatos com aquelas crianças cantoras que mais lhes eram significativas. Com o intuito de proporcionar a seus filhos a emoção de conhecer os cantores mirins, também eles se integravam ao espírito artístico que aquele programa representava na época.

Acompanhava os cantores o chamado "Regional" do Petisada Alegre, composto pelos músicos Sr. Oliveira Ciacci, ao acordeon; Sr. Mr. Moto, ao cavaquinho e violão; a Profª. Alice Macedo ao piano e Gilberto Vieira com instrumentos de percussão.

Estes músicos pacientemente às sextas-feiras à noite, ensaiavam a criançada para que no programa de domingo, tudo acontecesse sem imprevistos e com o mesmo brilhantismo que perdurou durante toda a existência do Petisada Alegre.

 

VARGINHA PRODUZ SEU PRIMEIRO DISCO

O espírito artístico profissional foi se desenvolvendo de tal maneira que após entendimentos do apresentador Sr. Djalma Guimarães com uma gravadora de discos, esses, chamados na época de "long play"- (LP) proporcionou a alguns cantores, selecionados por ele, a oportunidade de gravarem um disco , com duas músicas (uma faixa de cada lado) bem como, a gravação de todo um programa em um domingo. Esses discos, lembranças históricas, alguns desses cantores mirins ainda os conservam.

 

DO PETISADA ALEGRE SURGEM TALENTOS MUSICAIS DE VARGINHA

O Programa Infantil de Rádio Petisada Alegre foi para alguns cantores o início de uma carreira que para uns perdura até hoje, com grande sucesso. É o caso do cantor Silvio Brito(lincar). Após a extinção do programa, o músico já adolescente, fundou o conjunto musical denominado "Os Apaches" do qual ele era o cantor. Esse conjunto abrilhantava os vários "bailinhos" da época, acompanhava outros cantores, apresentava-se em outras cidades.

Assim a carreira artística de um varginhense se iniciou através desse programa infantil de rádio, onde ele era considerado um dos mais presentes e demonstrava através de sua atuação, o caminho que trilharia no futuro.

 

A CARREIRA DE SUCESSO DO JOVEM RADIALISTA VARGINHENSE

Cabe ressaltar também a participação do locutor desse programa, que auxiliava o Sr. Djalma Guimarães nas apresentações dos pequenos artistas. Fazia as propagandas dos patrocinadores , na época, entre eles, a loja "Palácio do Lar", "Café Dubom" , "Pastifício Santa Maria - Macarrão Cristal" e outros, ou seja o jovem promissor, Gilberto Lima. Iniciou sua brilhante carreira de locutor no Petisada Alegre. Posteriormente, mudando-se para São Paulo, foi contratado pela Rádio Piratininga, em seguida pela Rádio Globo do Rio de Janeiro. Chegando a ser o locutor oficial do programa "Fantástico" da Rede Globo, narrando as matérias apresentadas e lá permanecendo até por volta de 1986, quando veio a falecer.

Influenciado pela carreira brilhante de Gilberto Lima, seu irmão mais jovem, Eduardo , também varginhense, hoje desempenha a mesma função, na Rede Bandeirantes de Televisão, em um programa de telejornalismo.

Não somente esses artistas citados, advindos do Petisada Alegre, destacaram-se na música. Muitos outros formaram conjuntos musicais, tornaram-se cantores de orquestras, boates etc. Alguns ainda hoje atuam em movimentos musicais em nossa cidade ou em outras localidades.

Isso reforça a importância da iniciativa dos idealizadores desse programa que era a distração sadia e promissora da criançada aliada à possibilidade de um futuro profissional de sucesso

 

A INTEGRAÇÃO: MÚSICA , TEATRO E SOLIDARIEDADE

Além de apresentar os programas dominicais de rádio, havia também a iniciativa por parte de outras pessoas da cidade, em formar grupos de teatros com essas crianças, aproveitando seus talentos.

Peças teatrais eram ensaiadas e apresentadas em Varginha e em outras cidades da região, com o objetivo de arrecadar donativos para os mais carentes como o Educandário Olegário Maciel, a casa das crianças da saudosa Dona Maria Rosa e outras entidades filantrópicas.

Assim, o Petisada Alegre aliava à recreação também o aspecto social e ambos predominavam entre as crianças cantoras, crianças assistentes, familiares e demais visitantes que todos os domingos lotavam o auditório do Clube Infantil Pio XII.

Fica aqui registrado, como pesquisa, aos que desconheciam, o papel que o Programa Infantil de Rádio "Petisada Alegre" desempenhou na contribuição varginhense às artes musicais, de modo geral.

Foi por assim dizer, o sonhar, o confiar, o acreditar, o fazer acontecer como prova de que se é capaz quando se acredita realmente nessa capacidade.

 

PROGRAMA DE AUDITÓRIO - CALOUROS DA RÁDIO CLUBE DE VARGINHA

A Sociedade Rádio Clube de Varginha, assim denominada na época, sob a direção de seu fundador, o radialista Sr. Silas Sampaio Morais, desempenhou um papel fundamental na história da música varginhense.

O Programa de Calouros era realizado nas dependências da Rádio Clube de Varginha, onde hoje se instala a Copisan, na Rua Presidente Antônio Carlos. Lá os cantores se apresentavam e aqueles que se saiam bem em suas músicas recebiam brindes pela participação, oferecidos pelos estabelecimentos comerciais da cidade. Os que não conseguiam chegar ao final de suas apresentações eram "gongados"por uma pessoa que os dispensava.

Assim, todos tinham sua oportunidade e seu espaço. A platéia participava aplaudindo seus preferidos. Cantores de outras cidades vinham especialmente para se apresentarem, tão significativo era aquele programa de auditório.

Através desse programa destacaram-se vários profissionais da música, entre eles o cantor Antonio Borba que contratado por uma gravadora de São Paulo, para lá se dirigiu intensificando de forma expressiva sua carreira musical.

Duplas autenticamente sertanejas também através desse programa tiveram a oportunidade de se sobressair no mundo artístico.

Muitos cantores varginhenses ainda hoje participam de eventos musicais em nossa cidade, como por exemplo, os que compõem o grupo de Seresta(lincar) que aos domingos sob o patrocínio da Secretaria de Cultura do Município, se apresenta na Fonte Luminosa de Varginha. Sempre que isso acontece, contam com a presença de vários assistentes saudosistas daqueles tempos em que se prestigiava o programa de calouros da Rádio Clube de Varginha.

Desta forma, uma vez mais cabe elogiar o apoio e a oportunidade que esse programa de auditório, idealizado com o intuito de descobrir novos valores da música como cantores ou outros gêneros relacionados a essa arte , prestou àqueles que um dia vieram em busca de sucesso, foram bem recebidos, mereceram crédito de seus organizadores e souberam retribuir levando o nome de nossa cidade por onde têm passado.

Varginha desde há muitos anos sempre proporcionou de alguma forma expressiva condições para que seus talentos fossem revelados. Hoje, nela continua vivo esse propósito, através de escolas de músicas, do Conservatório Municipal de Música e outras instituições que ,acreditando em seus talentos, neles investem suas expectativas de um bom profissional nas áreas musicais.


Os textos acima foram compostos a partir dos preciosos depoimentos da Sra. Elza Erbst Marques.

 

Silas Sampaio Moraes, paixão pela radiodifusão


"Não sou radialista por mero acaso.
Sou radialista porque nasci com a
Rádio freqüência em meu sangue,
Com os kilohertz em minhas veias,
Com a música em minha alma."
Silas Sampaio Moraes

26 de agosto de 1918: nascia em São Carlos, estado de São Paulo, Silas Sampaio Moraes, filho de Joaquim Martins de Moraes, contador e teatrólogo, e de dona Maria do Amaral Sampaio Moraes.

Último dentre seis filhos, passou a infância em São Carlos. A família transferiu-se para São Paulo após as segundas bodas do pai. Na capital, cursou o Liceu e o curso Técnico de Contabilidade.

Em 1935 associou-se aos engenheiros Pedro Marinho e José Carlos Marinho, da cidade de Santos/SP, com eles idealizando a montagem de estações radiodifusoras. Ainda um sonho...

Em1936 mudou-se para Poços de Caldas, onde residia seu irmão mais velho, aí arrumando seu primeiro emprego na Rádio Cultura de Poços de Caldas. Anos depois escreveria:

"No início, como todos, nada entendia do assunto radiofônico, mas sentia dentro de mim uma vontade enorme de falar, de ser locutor, de agitar as massas através da arma poderosa."

19 de julho de 1941: nesta data foi adquirida em Varginha, pelos senhores Antônio Bittencourt, Francisco Souza Pinto e Armando Nogueira a Sociedade Rádio Clube de Varginha(lincar), ZYB-2. Alguns meses após, Silas foi convidado a fazer parte do cast de locutores. Anos mais tarde, como sócio, Silas Sampaio Moraes, Antônio Bittencourt e outros fundariam a Rádio Clube de São Lourenço, na cidade de mesmo nome.

Escolhendo permanecer em Varginha, conheceu em 1941 Ana Emília Resende Conde (Anita), filha de tradicional família varginhense e na época normalista do colégio Santos Anjos, por quem se apaixonou. Contraíram núpcias em dezembro de 1943. Da união nasceram Myriam Lêda, Heliane Maria, Vânia Beatriz e Silas Júnior.

A 7 de setembro de 1962 a cidade que muito amou e escolheu para viver, o adotou e honrou com o título de Cidadão Varginhense.

Silas Sampaio Moraes, homem dinâmico e empreendedor, foi pioneiro da arte da comunicação radiofônica em Varginha. Organizou e modernizou a programação da inesquecível Rádio Clube, criando diversos programas como Varginha em Foco, Espelho do Sul de Minas, Chave de Ouro, Ave-Maria, Hora da Saudade, Calouros da ZYB-2, Programa Sertanejo do Zé Picuá, Rádio Variedades B-2, dentre outros. Além disso, na Era de Ouro do Rádio recebeu em sua programação grandes nomes da música brasileira como Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Angela Maria, Marlene e muitos outros.

Não criou apenas programas musicais: compôs poemas e músicas, algumas gravadas em "compacto". Alguns títulos de sua autoria: "Queixume"; "Saudade, Morena"; "Haveremos de nos encontrar"; "Voltarei"...

Responsável pelo lançamento de grandes nomes como Galvão Conde, Gilberto Lima, Antônio Borba, Nilson Lemos e Silvio Brito, sempre empenhou-se em estimular vários talentos como Ribeirão e Córguinho e outros. Destes dizia, não sem contentamento;

"Sinto orgulhosamente que os alunos ultrapassaram em muito o professor".

Homem à frente de seu tempo, apesar das limitações técnicas de então, acompanhava com avidez os lançamentos tecnológicos em seu campo, lutando sempre pela modernização dos esquipamentos da emissora que era sua "menina-dos-olhos". Seu alvo final? Os ouvintes que com tanta expectativa aguardavam as transmissões.

"Uma estação de rádio começa pela ponta da agulha do disco e termina na ponta da torre. De ponta-a-ponta, passando pelos amplificadores, transmissores até seu final, só encontramos problemas de toda espécie e ordem, que o ouvinte, no aconchego de seu lar, jamais pode imaginar. Mas persistimos, apesar de toda problemática. Persistimos porque amamos o rádio, por isso nos entregamos à tarefa de fazer rádio, à luta pelo engrandecimento do rádio - o amigo que dá tudo, sem nada pedir a não ser a benevolência da sua atenção."

Segundo Cícero Acaiaba, grande amigo e colaborador, "a Rádio Clube de Varginha só começou mesmo a se impor, a captar uma audiência certa e que sempre aumentava, na gestão de Silas como seu diretor - gerente. Que o digam José Galvão Conde, José de Souza Pinto, Mauro Teixeira. E lá em cima, do céu sem dúvida, o animador, entusiasta e de alegria contagiante, a simpatia personificada de José Braga Jordão, que tantos e admiráveis programas criou e levou ao ar, sob a segura orientação de Silas Sampaio Moraes."

Ao longo de 40 anos Silas podia ser encontrado dioturnamente na Rádio Clube. Afastado de seu antigo estimado local de trabalho por motivo de saúde, nunca se desligou totalmente: acompanhava a programação pelo rádio, contava histórias de seu tempo, lembrava-se dos funcionários, dos desafios enfrentados, das venturas vividas e ficava fascinado ao ouvir sobre novas tecnologias. Algumas vezes surpreendia aos familiares com um certo brilho no olhar enquanto dizia-se: "este programa seria bom... gostaria..."

Mesmo longe continuava a criar programas e a sonhar com sua audiência e seu castelo de sons. Faleceu em 20/04/1993

"Dói demais a dor cruel de uma saudade".


Vânia Beatriz Conde Moraes.